terça-feira, 20 de junho de 2017

J. C. Ryle: "Você quer um amigo?"

I. Você quer um amigo na necessidade? Tal amigo é O Senhor Jesus Cristo. O homem é a criatura mais carente nesta terra de Deus, porque o homem é um pecador. Não há carência tão grande quanto aquela dos pecadores. Pobreza, fome, sede, frio, doença, todas são nada em comparação. Pecadores necessitam de perdão, e eles são completamente incapazes de provê-lo para si mesmos. Eles necessitam de libertação de uma consciência culpada, e do medo da morte, e eles não têm poder em si mesmos para obtê-la. Esta necessidade O Senhor Jesus veio ao mundo para satisfazer. “Ele veio ao mundo para salvar os pecadores” (I Timóteo 1:15).

Somos todos, por natureza, pobres criaturas moribundas. Desde o rei em seu trono ao indigente no hospício, todos nós somos doentes com uma mortal doença da alma. Quer saibamos ou não, quer sintamos ou não, todos estamos morrendo a cada dia.
O flagelo do pecado está em nosso sangue. Não podemos curar a nós mesmos, e estamos piorando a cada hora. Tudo isso o Senhor Jesus encarregou-se de remediar. Ele veio ao mundo “para trazer saúde e cura.” Ele veio para nos libertar “da segunda morte”. Ele veio e não só “destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (Jeremias 33:6, Apocalipse. 2:11, 2 Timóteo. 1:10).

Somos todos por natureza devedores aprisionados. Nós devíamos ao nosso Deus dez mil talentos, e não tínhamos nada com que pagar. Nós éramos miseráveis falidos, sem esperança de obter absolvição por nós mesmos. Jamais poderíamos ter livrado a nós mesmos da abundância de nossas obrigações, e estávamos dia a dia, afundando mais e mais profundamente. Tudo isso O Senhor Jesus viu e encarregou-se de remediar. Ele empenhou-se em nos “remir e resgatar”. Ele veio “proclamar liberdade aos cativos, e abertura de prisão aos presos.” “Ele veio nos resgatar da maldição da lei.” (Oséias 13:14, Isaías 61:1, Gálatas 3:13).

Nós éramos todos por natureza náufragos e arruinados. Jamais poderíamos ter chegado ao porto da vida eterna. Estávamos afundando no meio das ondas, paralisados, sem solução, perdidos e impotentes; amarrados e ligados pelas cadeias de nossos pecados, afundando sob o fardo de nossa própria culpa, e propensos a nos tornarmos presas do diabo. Tudo isso o Senhor Jesus viu e encarregou-se de remediar. Ele veio do Céu para ser nosso poderoso “ajudador”. Ele veio “buscar e salvar o que estava perdido”, e “nos redimir para que não desçamos à cova” (Salmos 89:19, Lucas 6:10, Jó 33:24).

Poderíamos ter sido salvos sem que o Senhor Jesus Cristo tivera vindo do Céu? Teria sido impossível, tanto quanto se pode ver. Os mais sábios homens do Egito e Grécia, e Roma jamais encontraram o caminho da paz com Deus. Sem a amizade de Cristo todos nós deveríamos ter sido perdidos para sempre no inferno.

O Senhor Jesus Cristo estava obrigado a vir nos salvar? Oh! Não! Não! Foi Seu próprio amor livre, misericórdia, e piedade que O trouxe aqui. Ele veio sem que o houvessem buscado ou pedido, porque Ele era Cheio de Graça.

Leitor, pense nessas coisas. Busque por toda a história desde o início do mundo. Olhe ao redor, por todo o círculo daqueles que você conhece e ama. Você jamais ouviu de tal amizade entre os filhos dos homens. Nunca houve um amigo tão real na necessidade como Jesus Cristo.

II. Você quer um amigo em ações? Tal amigo é O Senhor Jesus Cristo.

A verdadeira extensão da amizade de um homem pode ser medida por suas ações. Não me fale do que ele diz, e sente, e deseja. Não me fale de suas palavras e letras. Antes, me fale daquilo que ele faz. “Amigável é aquele que amigavelmente age”.

Leitor, as ações do Senhor Jesus Cristo para com o homem são a grande prova de Seu sentimento amigável em relação a ele. Nunca houve tais atos de bondade e autonegação como aqueles que Ele realizou em nosso favor. Ele não nos amou somente em palavras, mas em ação.
Foi por nós que Ele tomou sobre Si nossa natureza, nasceu de uma mulher. Ele, que era totalmente Deus, e igual ao Pai, colocou de lado por um breve tempo a Sua Glória e tomou sobre Si carne e osso como os nossos. O Todo-Poderoso Criador de todas as coisas se tornou um pequeno bebê como qualquer um de nós, e experimentou todas as nossas corpóreas fraquezas e enfermidades, exceto o pecado. “… sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.” (2 Coríntios 8:9).

Por nós Ele viveu trinta e três anos neste mundo mau, desprezado e rejeitado pelos homens, um homem de dores, que sabe o que é padecer. Mesmo sendo Rei dos reis, Ele não tinha onde reclinar Sua cabeça. Embora Ele fosse Senhor dos senhores, Ele esteve frequentemente cansado, e faminto, e com sede, e pobre. “Ele tomou sobre Si a forma de servo, e humilhou-Se.” (Filipenses 3:7,8).

Por nós Ele sofreu a mais dolorosa de todas as mortes, mesmo a morte de cruz. Embora inocente e sem culpa Ele Se permitiu ser condenado, e achado culpado. Ele, que era o Príncipe da Vida, foi levado como um cordeiro ao matadouro e derramou Sua alma na morte. Ele “morreu por nós”. (1 Tessalonicenses 5:10).

Era Ele obrigado a fazer isso? Oh! Não! Ele poderia ter convocado ao Seu auxílio mais que doze legiões de anjos e dispersado Seus inimigos com uma mera palavra. Ele sofreu voluntariamente e por Sua própria livre vontade, fez expiação por nossos pecados.

Ele sabia que nada a não ser o sacrifício de Seu corpo e sangue poderia jamais fazer paz entre homem pecador e um Deus Santo. Ele derramou Sua vida para pagar o preço de nossa redenção. Ele morreu para que nós pudéssemos viver. Ele sofreu para que nós pudéssemos reinar. Ele carregou a vergonha para que pudéssemos receber glória. “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus;” “Aquele que não conheceu pecado, Ele o fez pecado por nós; para que, nEle, fôssemos feitos justiça de Deus.” (1 Pedro 3:18; 2 Coríntios 5:21).

Leitor, tal amizade como esta ultrapassa o entendimento humano. De amigos que morreriam por aqueles que os amam, podemos ter ouvido casos assim algumas vezes. Mas quem pode encontrar um homem que daria sua vida por aqueles que o odeiam? Porém, isto foi o que Jesus fez por nós. “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8).

Pergunte a todas as tribos na humanidade de uma ponta à outra do mundo e em lugar algum você encontrará uma ação dessas. Jamais houve alguém tão elevado e que tenha descido tão baixo quanto Jesus, o Filho de Deus. Ninguém jamais deu prova tão cara de Sua amizade. Ninguém jamais pagou tanto, e suportou tanto para fazer o bem a outros.
Jamais houve tal amigo em ações como Jesus Cristo!

III. Você quer um amigo poderoso e forte? Tal amigo é Jesus Cristo.

Poder para ajudar é o que poucos possuem neste mundo. Muitos possuem vontade suficiente para fazer bem a outros, mas nenhum poder. Eles sentem pela tristeza de outros e alegremente os aliviariam se pudessem. Eles podem chorar com seus amigos em aflição, mas são inaptos para lançar fora a sua dor. Mas embora o homem seja fraco, Cristo é forte. Embora o melhor de nossos amigos terrenos seja frágil, Cristo é Todo-Poderoso. “Todo poder Lhe foi dado no Céu e na Terra.” (Mateus 28:18).

Ninguém pode fazer tanto por aqueles a quem favorece quanto Jesus Cristo. Outros podem favorecer, um pouco, seus corpos. Ele pode favorecer ambos, corpo e alma.

Outros podem fazer um pouco por seus amigos no presente. Ele pode ser um amigo por ambos, presente e eternidade.  Ele é capaz de perdoar e salvar o maior de todos os pecadores. Ele pode libertar a mais culpada consciência, de todos os seus fardos e dar a ela perfeita paz com Deus. Ele pode lavar as mais vis manchas de iniqüidade, e tornar um homem mais alvo que a neve aos olhos de Deus. Ele pode vestir um pobre e fraco filho de Adão em eterna justiça, e dar a ele um direito ao Céu que jamais lhe poderá ser arrancado. Em uma palavra, Ele pode conceder-nos paz, esperança, perdão, e reconciliação com Deus, se nós somente confiarmos nEle. “O sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo pecado.” (I João 1:7).

Ele é capaz de converter o mais duro dos corações e criar em um homem um novo espírito. Ele pode tomar aqueles mais egoístas e ímpios e lhes dar outra mente pelo Espírito Santo que Ele põe no seu interior. Ele pode fazer as coisas velhas passarem, e todas as coisas se tornarem novas. Ele pode fazê-los amar aquilo que um dia odiavam, e odiar aquilo que um dia amavam. “Ele pode dar-lhes poder para se tornarem os filhos de Deus.” “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura.” (João 1:12; 2 Coríntios 5:17).

Ele é capaz de preservar até o fim todos que crêem nEle, e se tornam Seus discípulos. Ele pode lhes dar Graça para vencer o mundo, a carne e o diabo, e combater o bom combate até o fim. Ele pode liderá-los em segurança apesar de toda tentação, levá-los para casa atravessando mil perigos, e mantê-los fiéis, embora estejam sozinhos e não tenham ninguém que os ajude. “Ele pode salvar totalmente os que por Ele se chegam a Deus.” (Hebreus 7:25).

Ele é capaz de dar àqueles que O amam o melhor dos presentes. Ele pode lhes dar, em vida, confortos no interior que dinheiro jamais poderá comprar, paz em meio à pobreza, alegria em meio à tristeza, paciência no sofrimento. Ele pode lhes dar, na morte, resplandecentes esperanças, as quais os capacitam a andar pelo vale escuro sem medo. Ele pode lhes dar, após a morte, uma coroa de glória, que não esvanece e uma recompensa comparada à qual a Rainha da Inglaterra nada possui para conceder.

Leitor, isto é poder, verdadeiramente. Isto é verdadeira grandeza. Isto é verdadeira força. Vá e veja o pobre idólatra hindu, buscando paz em vão, afligindo seu corpo, e mesmo depois de cinquenta anos de sofrimento auto-imposto, incapaz de encontrá-la. Vá e veja o ignorante romanista, dando dinheiro para que seu sacerdote ore por sua alma, e ainda assim, morrendo sem conforto. Vá e veja os homens ricos gastando milhares em busca de felicidade, e ainda assim, sempre descontentes e infelizes. E então, se volte para Jesus e pense no que Ele pode fazer, e diariamente faz por todos que confiam nEle. Pense em como Ele cura os de coração partido, conforta todos os doentes, anima todos os pobres que confiam nEle, e supre todas as suas necessidades diárias. O medo do homem é forte. A oposição deste mundo mau é poderosa. As luxúrias da carne ardem horrivelmente. O medo da morte é terrível. O diabo é um leão rugindo, buscando a quem possa devorar. Mas Jesus é mais forte que todos eles. Jesus pode nos fazer conquistadores sobre todos esses inimigos. E então diga se não é verdade, que jamais houve um amigo tão Poderoso como Jesus Cristo.

IV. Você quer um amigo amoroso e afetuosoTal amigo é Jesus Cristo.

Bondade é a própria essência da amizade verdadeira. Dinheiro, conselho e ajuda perdem metade de sua graça se não forem dados de uma maneira amorosa. Que tipo de amor é este do Senhor Jesus para com o homem? É chamado “um amor que excede o entendimento.” (Efésios 3:19).

O amor brilha adiante em Sua recepção aos pecadores. Ele não recusa a nenhum que vem a Ele para salvação, não importa o quão indigno ele possa ser. Sejam suas vidas as mais perversas, sejam seus pecados em maior número que as estrelas do céu, o Senhor Jesus está pronto a recebê-los, e dar a eles perdão e paz. Sua compaixão não tem fim. Sua piedade não tem limites. Ele não se envergonha de favorecer aqueles os quais o mundo rejeita como sem solução. Não há quem seja mau demais, imundo demais, e doente demais por causa do pecado, para ser aceito em Seu lar. Ele está disposto a ser o amigo de qualquer pecador. Ele tem bondade e misericórdia e remédio para curar a todos. Há muito Ele proclamou esta como sendo sua norma: “Aquele que vem a Mim de maneira nenhuma lançarei fora.” (João 6:37).

O amor brilha adiante em Seu tratamento aos pecadores, após terem estes crido Nele e se tornado Seus amigos. Ele é muito paciente com eles, embora suas condutas sejam, frequentemente, bastante fatigantes e enervantes. Ele jamais se cansa de ouvir suas reclamações, não importa o quão frequentemente eles venham a Ele. Ele é profundamente compreensivo com todas as suas dores. Ele sabe o que é dor. Ele sabe o que é padecer. Em todas as suas aflições Ele é afligido. Ele nunca permite que eles sejam tentados acima daquilo que eles são capazes de suportar.

Ele os supre de Graça diária para seus conflitos diários. Suas pobres obras são aceitáveis a Ele. Ele fica tão satisfeito com elas quanto um pai fica com as tentativas de seu filho de andar e falar. Ele fez com que fosse escrito em Seu Livro que “Ele se agrada de Seu povo” e que “Agrada-se o Senhor dos que o temem”. (Salmos 149:4 e Salmos 147:11)

Ah, leitor! Não há amor na terra que possa ser nomeado juntamente com este. Nós amamos aqueles em quem vemos algo que merece nossa afeição, ou aqueles que são sangue de nosso sangue. O Senhor Jesus ama pecadores nos quais não há nada de bom. Nós amamos aqueles dos quais obtemos algum retorno por nossa afeição. O Senhor Jesus ama aqueles que podem fazer pouquíssimo ou nada por Ele comparado com o que Ele faz por eles. Nós amamos onde podemos encontrar algum motivo para amar. O grande Amigo dos pecadores tira Seus motivos de Sua própria compaixão sem fim. Seu amor é puramente desinteressado, puramente altruísta, puramente gratuito.

Nunca, nunca houve um amigo tão verdadeiramente amoroso como Jesus Cristo.

 Fonte: http://www.projetoryle.com.br/voce-quer-um-amigo-sermao-inedito-de-j-c-ryle/voce-quer-um-amigo/

sexta-feira, 16 de junho de 2017

O Calvinismo e o Pr. João Flávio Martinez



O apologista e Pastor, João Flávio Martinez, finalmente teve a oportunidade de sair do seu site na critica ao calvinismo, e ir a um programa de TV, para que se avalie o que ele realmente ele pensa sobre o calvinismo. Nesse debate, ele teve como oponente o Pr Marcos Granconato. Definitivamente, não foi uma defesa nem ao menos mediana do Pr João Flávio. Foi péssimo, não que o arminiano-wesleyano seja tão ruim, nem que nosso ilustre irmão tenha só aquele conteúdo, mas o Pr João Flávio ali e naquele tema, ele foi muito mal. Veja três erros cometidos pelo nosso irmão João Flávio:

Primeiro erro. Ele mesmo quer fazer com que os calvinistas olhem para Calvino de uma maneira  que nem mesmo esses olham! Foi incrível e até risível isso. Não há uma confissão reformada sequer que coloque o Reformador da forma que ele Martinez tentou! Portanto, um argumento sem qualquer base, nem verdade. Lamentável.  Há várias confissões reformadas, João Flávio ao menos poderia nos indicar uma que trouxe essa visão a respeito de João Calvino, que ele diz que devemos ter.

Ao dizer que há ‘calvinismos’ – cada um fazendo a seu modo e não seguindo tudo que Calvino disse. Se é assim, então por si mesmo esse argumento dele deveria ser de sinal que sua insistência e uma acusação falsa. O Granconato deixou isso claro, mas Flávio apenas demonstrou teimosia.

Veja a incoerência - O Pr João Flávio disse que é wesleyano:

Por acaso ele como pastor batista, endossa tudo que Wesley disse? Ele batiza crianças como Wesley batizava? John Wesley ensinou que Miguel é um nome de Cristo, João Flávio endossa isso?

Ele até me respondeu isso no site do CACP, dizendo que é wesleyano na soteriologia, mas ser calvinista ou é “tudo ou é nada”, depois menciona uma postura de Calvino e diz que deve ser aceita... Ele só não consegue provar essa imaginação. Ele não tem uma prova sequer que sustente essa verberação que ser calvinista é ser calviniano – ou um seguidor irrestrito dos escritos e das posições de João Calvino.

O grande teólogo calvinista Charles Hodge mesmo, sempre preferiu ser identificado como “agostiniano”. Hoekema discorda de interpretações de Calvino, Augustus Nicodemus interpreta Romanos 7 de uma forma que Calvino deplorava... Enfim, outros inúmeros casos provam que o querido irmão João Flávio perdeu os limites de uma avaliação coerente e abalizada.

Por exemplo a IPB, adota uma Confissão Reformada, de Westminster. A Confissão de Fé de Westminster possui exposição doutrinária de vários assuntos da Teologia. De casamento à censuras eclesiásticas. Em seus 33 capítulos, 11 capítulos estão relacionados diretamente com a pessoa e obra de Cristo Jesus, realizada nos crentes pelo Espírito Santo, pela glória de Deus Pai. Mais 5 capítulos indiretos. Os capítulos diretos são do 8º ao 18º, e os indiretos são os capítulos 7, 25, 27-29. Portanto é uma Confissão cristocêntrica. Nada, simplesmente, nenhuma sentença a respeito de João Calvino. Aliás, há até mesmo um amadurecimento da teologia de Calvino em muitos pontos, chegando até mesmo surgir especulações que tal confissão não estaria de todo coerente com o pensamento do Reformador.

Segundo erro. A avaliação de Martinez a respeito da doutrina do decreto no pensamento Reformado é simplesmente desconectada do que reformados realmente ensinam sobre isso em postura confessional. Ele fez um balaio de gato no que Calvino escreveu, sem considerar as ponderações gerais, da visão Reformada, e quer porque quer que o Calvinismo diga o que ele acha ser um absurdo. João Flávio precisa deixar seu oposicionismo gratuito, e ler as obras calvinistas que o corrigiria.

Considerando que os Símbolos de Westminster, representa o pensamento teológico da fé presbiteriana, pode dizer categoricamente que qualquer que diz ser presbiteriano e faz uma afirmação, no sentido de Deus ser autor do pecado, automaticamente, virtualmente, ele não pode ser presbiteriano – confessional. Perceba o que é confessado pela crença presbiteriana:

“I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas. Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34.”

“IV. A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, e regula e governa em uma múltipla dispensação mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado nem pode aprová-lo. Isa. 45:7; Rom. 11:32-34; At. 4:27-28; Sal. 76:10; II Reis 19:28; At.14:16; Gen. 50:20; Isa. 10:12; I João 2:16; Sal. 50:21; Tiago 1:17.”

Sobre isso Louis Berkhof diz:

“outras coisas que Deus inclui no Seu decreto e pelo qual tonou certas, mas que não decidiu efetuar pessoalmente, como os atos pecaminosos das Suas criaturas racionais. O decreto, no que se refere a estes atos, é geralmente denominado decreto permissivo. Este nome não implica que o futuro destes atos não é certo para Deus, mas simplesmente que Ele permite que aconteçam pela livre ação das Suas criaturas racionais. Deus não assume a responsabilidade por estes atos, sejam quais forem.” (Teologia Sistemática, p. 97).

O mesmo autor explica que nesse caso Deus determina ‘não impedir a autodeterminação pecaminosa finita e regula o resultado dessa autodeterminação pecaminosa’ (p. 99).

A. A. Hodge afirma: 

“Deve lembrar-se, contudo, que o propósito de Deus com respeito aos atos pecaminosos dos homens e anjos répobros, em nenhum aspecto causa o mal nem o aprova, mas apenas permite que o agente mau o realize, e então o administra para seus próprios sapientíssimos e santíssimos fins.” (A Confissão de Fé comentada, p. 98).

O pecado nasceu do livre-arbítrio do diabo, de Adão e Eva. Embora Deus o tenha definido, foram os tais agentes livres, sem influencias naturais internas, em seu exercício racional, decidiram desobedecer a Deus, e Este, imputou neles a maldição e corrupção, prometida em Sua sentença.

Sobre isso, a CFW diz:

 “I. Nossos primeiros pais, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, pecaram, comendo do fruto proibido. Segundo o seu sábio e santo conselho, foi Deus servido permitir este pecado deles, havendo determinado ordená-lo para a sua própria glória. Gen. 3:13; II Cor. 11:3; Rom. 11:32 e 5:20-21.” (Cap. 6).

“CAPÍTULO IX - DO LIVRE ARBITRIO:  I. Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7. II. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder. Ec. 7:29; Col. 3: 10; Gen. 1:26 e 2:16-17 e 3:6. III. O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu pr6prio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5.”



Terceiro erro. Ele fugiu visivelmente de tratar dos textos apresentados por Granconato, que são acachapantes para o argumento que ele levantou. Esse foi seu erro mais fragrante e destruidor para ele. Falou que no site do CACP os textos estavam explicados, e apenas minimizou o peso deles, ao colocar argumentos simplistas não extraídos dos termos que lhe causam problemas.

Aliás, ele disse que tem uma tese - que o calvinismo é responsável pelo ateísmo na Europa! Quando vemos ateus acusando a Bíblia as razões de suas descrenças (dilúvio, matanças, etc) – para prejuízo deles mesmos. Para o impuro, tudo é impuro. Agora dizer que vai ainda sustentar isso, da forma que se apresentou ali no debate, vai ser um pouco difícil.

Queria aqui deixar um desafio ao Pr João Flávio: 

  • O ICP está ministrando aulas no programa da Igreja do Agenor Duque. O que acha de escrever a respeito dessa união?
Falar sobre calvinismo não é sua praia...

terça-feira, 13 de junho de 2017

Por que a Fé Reformada e o Pentecostalismo são incompativeis?

“Sou um calvinista pentecostal” (CP), ou “Sou um pentecostal calvinista”(PC), depende quando é dito por quem aderiu ao movimento seguinte. Muitos hoje asseveram que é possível ser calvinista e ao mesmo tempo ser pentecostal. Se por calvinismo você entender apenas os cinco pontos da soteriologia Reformada, e se por pentecostal você entender apenas a continuidade de dons miraculosos, sem uma estudo mais profundo das bases calvinistas e pentecostal, de maneira simplória, aparentemente não haveria muitos embates. Mas a questão não é simples assim. Não definitivamente, não!

Não estou aqui a dizer que não há quem consiga fazer isso... até por que dois homens de Deus que conheço na internet o são – Clóvis do Blog Cinco Solas, bem como o ilustre Pastor Geremias Couto...  No entanto, o que devemos entender, é que o calvinismo não pode ser sustentado apenas em seus cinco pontos destituído de sua teologia todo abrangente apresentada nas confissões reformadas oficiais, já que os cinco pontos surgem de toda reflexão Reformada, e não é anterior a ela. Tentarei justificar essa minha argumentação, onde creio ser impossível ser Pentecostal e Reformado, nesse prisma que serve como regente ao pensamento calvinista representado na TULIP.

Ø  O grande tropeço entre a teologia reformada e a teologia pentecostal, é exatamente a continuidade dos dons, sendo isso, inevitavelmente uma contra partida à suficiência e autoridade da Escritura. 

Sim, esse é o grande problema! Quando os PCs ou CPs tendem minimizar os dons a um grau de orientação pessoal, não canônico, eles acabam causando um impasse a esse argumento – afinal, a voz do Espírito Santo, dita por Ele, através de um dom não seria doutrina? No livro Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, Myer Pearlman fala que o dom de profecia não substitui a pregação e o ensino, “mas apenas complementa-os com o toque da inspiração”! O esmo autor precisa ainda explicar como os profetas atuais são inspirados, e o debate é semelhante à inspiração das Escrituras (p.323,324).

Ao ponto, indicado – a crença Reformada, e na verdade cristã, o que diz? Veja o que o Catecismo Maior de Westminster codifica:

“3. Que é a Palavra de Deus? R: As Escrituras Sagradas, o Velho e o Novo Testamento, são a Palavra de Deus, a única regra de fé e prática. II Tim. 3:16; II Pedro 1:19 21; Isa. 8:20; Luc. 16:29, 31; Gal. 1:8-9.”

Quando um crente Pentecostal resolve fazer algo, pois (supostamente) recebeu do Espírito uma orientação pessoal e especial, ele fez dessa orientação uma prática, a Escritura nesse caso não é a única fonte que o Espírito lhe fala. Isso é fundamental para um Reformado. Muitos dizem assim:

        1. E se tal orientação direta estiver em harmonia com a Palavra?
2. Outros dizem: e se tal orientação direta for uma passagem da Palavra?

Se está com base na Palavra e em harmonia com ela, por qual motivo o Espírito então não fala nessa palavra ao coração do crente, trazendo à sua memória, em uma pregação ou leitura, tal princípio bíblico? Isso precisa ser novamente revelado e ou ‘reprofetizado’? Por qual motivo o lembrete dessa Palavra vem por meio de um canal especial, por um comunicador especial, em um período que toda a revelação de Deus já se completou e está nas mãos desse servo de Deus?
Exemplos:

O Espírito Santo está diria por intermédio de uma profecia para você ler ou praticar Mateus 28.19,20, onde diz que devemos fazer discípulo?
O Espírito Santo disse para você casar com certa pessoa?
O Espírito Santo te mandou sair do seu emprego e abrir seu próprio negócio?
O Espírito Santo mandou você fazer um voto e não tomar coca-cola?

Em tais campos da vida todo crente tomará suas decisões, com base na Palavra, no seu discernimento cristão. Os dons para uso pessoal, como defende alguns, é uma forma de ‘driblar’ o impasse diante da necessidade de crer que as Sagradas Letras já são suficientes para ‘nos equipar para toda boa obra’.

Antes de prosseguir, quero fazer duas ponderações aqui que são altamente esclarecedoras. 1. Não estou dizendo que Deus não faça mais atos extraordinários ou milagrosos, ele o faz e fará quando quiser. 2. O problema da continuidade dos dons não deve ser avaliado apenas à luz do ensino bíblico, mas em especial se a atual manifestação está condizente com esse ensino e modelo bíblico.

Nota-se uma falta de conexão na defesa Pentecostal ao apelar para o uso dos dons na Igreja do NT, com a nossa situação. Vou ilustrar da seguinte maneira:

Estamos no ano 39 d.C. A igreja de Cristo começa a propagar e se expandir. Somos ainda uma ‘seita’ judaica, rejeitada pelos próprios líderes judaicos. Essa ramificação afirma que tem a verdade que foi prevista no sistema mosaico e nos profetas. Essa pequena religião, diz ao mundo que o seu Deus é o criador do mundo e enviou o Seu Filho, e como homem morreu e ressuscitou ao terceiro dia. Não temos templo, as vezes nos reunimos no Templo Judaico, que em fase de transição, não está sendo mais útil, pois Jesus substituiu tudo aquilo. Perseguidos pelo Império Religioso e Político, começamos uma nova interpretação dos Escritos judaicos. As igrejas se organizam, mas não nenhuma orientação para cada comunidade local. Que está formada por pessoas não judaicas e judeus convertidos. Quais nossas práticas e ações? Como orientar uma comunidade distante? O que fazer em certa e certa situação, envolvendo cerimônias e pecados? Como será estabelecida nossa liderança? E os cultos, como fazer? Há o sistema judaico em pleno andamento, até que ponto isso ainda faz parte da Igreja? Certamente o Espírito Santo conduziria as igrejas locais e os crentes, que ainda não possuíam uma orientação clara. Daí chaga-nos a notícia que algumas cartas foram escritas – Tiago, Colossenses, Evangelho de Marcos. Começamos a providenciar que uma cópia dessas cartas chegassem em nossa igreja (veja Cl 4.16). Quando o assunto foi estabelecido pela autoridade direta ou derivada, de alguma apostolo, o assunto era assentado como resolvido e direcionado. Nesse caso, já não se havia necessidade de revelação ou profecia, visto que o fundamento da Igreja eram os apóstolos.

Tais questões são hoje facilmente solucionadas, mas imagine-se naquele tempo, possuindo apenas o VT como orientação? A Igreja não nasceria se o Bendito Revelador da Verdade, não cuidasse dela por meio dos dons! Interessante que até mesmo temas futuros também foram já estabelecidos – pergunto: se o Espírito continuasse nos revelando nos dias atuais, por que ele cuidaria de nos avisar na Escritura a respeito de tudo que está relacionado ao fim de todas as coisas, na Escritura? Veja: II Ts 2.1-6; II Tm 3.1-0; II Pe 2,3; Apocalipse.

Mais acima eu disse que temos outra situação. Falta de padrão com o que é hoje praticado com o modelo bíblico. UM CULTO PENTECOSTAL É UM VERDADEIR DESCOMPASSO AO QUE O ESPÍRITO FALOU EM I CORINTIOS 14 E O QUE ELE FEZ AM ATOS 2! Sem falar, da falta de qualquer dom do Espírito a respeito em operação de milagres – os dons geralmente os chamados dons da fala (línguas ou profecias genéricas, ou das que não podem ser constatadas, sonhos ou visões). Nenhum pentecostal com os dons que dizem ter, até hoje foi realmente útil, em descobrir manuscritos bíblicos, traduzir as línguas originais, resolver grandes questões, que a Teologia Cristã se arrastou por séculos em oração e debruçando na Palavra, para se submeter ao Espírito e oferecer a Igreja uma direção em épocas de crises. A Reforma Protestante, por exemplo, depois do período do NT e dos Credos, não contou com nenhum pentecostal.

Quando lemos a Bíblia, percebemos que Jesus Cristo, por exemplo, ao curar: 1. Sem nenhum padrão estabelecido – eles curava de longe, com as mãos, com cuspe, dando ordem, sem saber, exigindo fé, sem exigir fé. 2. Todas as curas foram instantâneas – nenhum cura de Jesus foi além do momento da emissão da ordem, pois eram sinais do reino e de Sua autoridade, não poderia haver dúvida que não foi uma cura extraordinária. 3. A maioria esmagadora das curas físicas de Cristo, foi realizada naqueles que não eram seus discípulos – eram comprovações de que era Filho de Deus.

A meu ver, a Fé Reformada Confessional, que é por natureza a Fé Bíblica, não coaduna com o movimento Pentecostal, pois:

1. O movimento Pentecostal é uma ameaça à suficiência da Bíblia, por mais que os teólogos pentecostais tenham tentado ‘minimizar’ esse perigo, ele é inato ao movimento pentecostal e jamais poderá se desvencilhar desse perigo, enquanto segurar numa mão a Bíblia completa e por outro, fechar os olhos buscando ‘mais outra revelação’, quer para sua vida, quer para a igreja q qual ele prega. (Nota: Nenhum apologista pentecostal pode questionar por fim a fonte da autoridade de seitas proféticas, mas apenas nos efeitos, pois ambos, creem que Deus ainda está falando.)

2. O movimento Pentecostal é uma ameaça a autoridade da Bíblia, pois seu padrão hoje visto não está de forma alguma condizente com o que acontecia na Escritura. Os dons bíblicos, ainda que existissem, é um fato que não é encontrado no dia de hoje, conforme era produzido no tempo bíblico. Por isso, dizer que apenas os neopentecostais, estão em erros, pois não produzem coisas ordenadas na Escritura, não pode ser uma conclusão que exclua os cultos pentecostais tradicionais.

3. O movimento Pentecostal surgiu em uma época distinta do período bíblico, pois a necessidade dos dons no período da igreja nascente, e sem o NT em mãos, é totalmente desproporcional ao que vivemos hoje após o fechamento do cânon.



Dizer que é Reformado e Pentecostal, e unir Westminster à Rua Azuza, é um descompasso para um dos lados - é impossível unir as duas vertentes. Ou dilui uma , ou outra.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Aos Novos Calvinistas: A ESSÊNCIA DO CALVINISMO

Por Paulo Henrique dos Santos

O nome Calvinismo* tem ganhado nas últimas décadas uma posição de destaque no meio evangélico brasileiro, seja entre aqueles que vieram a se identificar com ele ou entre aqueles que não se identificam, o Calvinismo tem ganhado um espaço que abrange desde o meio acadêmico, chegando até as rodas de conversas entre cristãos em suas igrejas.

No entanto, qual a essência do Calvinismo? Acredito que se perguntássemos nos seminários, faculdades, igrejas e nas ruas a respeito dessa questão, iríamos obter respostas bem diferentes. A identificação de algumas pessoas como sendo calvinistas normalmente é uma identificação reducionista, que se restringe a apenas um dos aspectos do calvinismo. Certa vez Charles Spurgeon disse: 

“Não há nada sobre o que o homem precisa ser mais instruído do que sobre a verdadeira natureza do Calvinismo”. Assim, quer seja você um calvinista, um não calvinista, ou até mesmo um anticalvinista, você precisa dar uma atenção justa a questão sobre o que é a essência do Calvinismo.

O PRINCIPIO BÁSICO DO CALVINISMO

Devemos iniciar dizendo que a teologia calvinista inclui todas as doutrinas evangélicas essenciais, tais como a deidade de Cristo, a expiação objetiva, a pessoa e a obra do Espírito Santo, enganam-se aqueles que pensam que o Calvinismo se resume a área da soteriologia com os famosos cinco pontos do Calvinismo, pois na verdade ele entra em muitas outras áreas, inclusive tendo forte influência na visão de mundo por parte do calvinista.

Também inclui muitas doutrinas desenvolvidas por grandes teólogos como Agostinho e Martinho Lutero, mas o Calvinismo herda seu nome do grande teólogo francês João Calvino. Deve-se, porém, fazer um parêntese aqui para a seguinte questão, é um erro achar que o Calvinismo é apenas uma reunião de ensinos feita por João Calvino, das obras dos teólogos que o antecederam, Calvino foi um gênio na organização e sistematização de doutrinas bíblicas, sua divida para com seus antecessores não deprecia a sua originalidade, evidenciada em sua doutrina da filiação divina, ênfase na humanidade do Redentor, o ofício tríplice de Cristo, em sua explanação do culto ser baseado no segundo mandamento etc.

Ao mesmo tempo deve se evitar o erro de se dizer que o calvinista é um adorador de Calvino ou que o tem como alguém inspirado e infalível, ou quaisquer outras coisas semelhantes a essa, pois o próprio Calvino nunca manifestou qualquer intenção de possuir seu nome ligado a discípulos ou a teologia.

Os calvinistas ao longo da história não se portaram como meros imitadores de Calvino, muito pelo contrário, esses trabalharam, por exemplo, no desenvolvimento da teologia do pacto, da teologia dos decretos e na doutrina da segurança da fé. Por isso apesar da contribuição de diversas correntes, o Calvinismo pode ser bem definido como “O mais amplo e o mais profundo cristianismo, ou o mais consistente e, igualmente, o mais harmonioso cristianismo”. Citamos novamente o batista Charles Spurgeon que certa vez disse:

Eu não acredito que seja possível pregar a Cristo, e esse crucificado, a menos que estejamos pregando o que é hoje conhecido como Calvinismo, o Calvinismo é só um apelido, pois na verdade ele é o evangelho e nada mais”.

Através dos séculos muitos eruditos têm procurado identificar um conceito singular que governa o Calvinismo, algumas interpretações do princípio básico do Calvinismo incluem, por exemplo, a predestinação e o pacto, no entanto, se temos que reduzir o Calvinismo a um conceito, acredito que podemos utilizar as palavras de B.B Warfield que disse: ”Ser reformado/calvinista é ser teocêntrico”. O que será que isso significa?

TEOCENTRISMO

O calvinista é aquele que crê que o Deus revelado na Escritura é o Senhor da vida e Soberano no universo, isso é diferente da visão de muitos irmãos não calvinistas sobre a Soberania divina. Falar de um Deus Soberano no meio evangélico é falar de algo que todos aceitarão, mas o que se tem visto é que essa soberania engloba apenas alguns aspectos, ou seja, Deus é soberano para nos abençoar, para abrir portas, para curar, mas quando se fala de uma soberania que abrange toda a salvação humana, todas as decisões humanas e todos os acontecimentos do universo, veremos então que para a grande maioria no meio evangélico, a soberania que Deus exerce é limitada por causas externas a ele.

Portanto, o interesse primário da teologia calvinista é o Deus Trino, os calvinistas são aqueles que vêem a vida toda “Coram Deo”, ou seja, uma vida vivida diante da face de Deus. Ser calvinista significa enfatizar o abrangente, soberano e amoroso senhorio de Deus sobre todas as coisas, enfatizar um Deus que é livre e independente de qualquer força externa (Dn 4.35), um Deus que sabe o fim desde o princípio (ISA 46: 9-10), que não somente criou, mas também sustenta toda a criação (Cl 1. 16-17), que governa e dirige todas as coisas para sua própria glória (Rm 11.36), um Deus que deve ser amado, adorado, temido, glorificado por toda a criação (1 Co 10.31).

R.C Sproul concorda coma definição citada acima dizendo:

A doutrina de um Deus Soberano e amoroso em Jesus Cristo é o centro da teologia calvinista, pois através desse entendimento nós podemos entender a natureza do homem, que porta a imagem de Deus, a natureza de Cristo, que age para satisfazer o Pai, a natureza da salvação, que é realizada por Deus, e a natureza da ética, cujas normas estão baseadas no caráter de Deus, e ainda muitas outras considerações teológicas.”

Dessa forma, podemos então dizer que o calvinista define toda doutrina de uma maneira centrada em Deus, o pecado é terrível porque é uma ofensa contra Deus, a salvação é maravilhosa porque traz glória a Deus, o céu é glorioso porque é o lugar em que Deus é tudo em todos, o inferno é terrível porque é o lugar onde Deus manifesta sua ira justa, ou seja, Deus está no centro de todas essas coisas.

CONCLUSÃO

Com o aumento do interesse pelo Calvinismo torna-se necessário um melhor conhecimento a respeito dele, não devemos achar que conhecer os cinco pontos faz de alguém um calvinista ou reformado, pois a teologia calvinista vai muito além disso. A centralidade de Deus tem sido considerada como a essência do calvinismo, para o calvinista Deus é o grande sol, e todas as outras bênçãos são raios de luz, Deus é a fonte, e todas as bênçãos são apenas correntes de água.

Infelizmente, nos dias atuais essa paixão pela centralidade de Deus na teologia e na vida tem sido deixada de lado até mesmo dentro de igrejas Reformadas, muitos púlpitos passaram a centralizar o homem, muitos cristãos passaram a colocar seus interesses acima de tudo. Que o nascimento desse interesse pelo Calvinismo seja aproveitado principalmente pelas igrejas Reformadas, e que Deus volte a ocupar o lugar que lhe é devido, o centro.

REFERÊNCIAS
Joel Beeke, Vivendo para a glória de Deus.
Charles Spurgeon, Verdades chamadas Calvinistas.

*Embora seja melhor dizer “Reformados”, mas para efeitos da identificação do uso, prosseguimos com o termo em mira.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Stephen Charnock: De que maneira o homem faz de si mesmo o seu próprio fim?

De que maneira o homem faz de si mesmo o seu próprio fim?

- Ao aplaudir e abraçar a si mesmo, permanecendo em sua própria percepção de perfeição, ao invés de Deus.
- Ao atribuir glória e honra a si mesmo, levando o crédito por qualquer bem que faça, ou culpando a Deus por qualquer problema.
- Ao insistir em doutrinas que o agradam, e sustentando um falso profeta que o ensina.
- Ao demonstrar maior interesse pelas injúrias cometidas contra si mesmo do que por aquelas cometidas contra Deus.
- Ao confiar em si mesmo e em sua inteligência e sabedoria ao invés de buscar conhecer a opinião de Deus.
- Ao violar a consciência, que é um agente de Deus, a fim de agradar a si mesmo. É desta e de muitas outras maneiras que demonstramos se somos um ateísta prático.

Nós usurpamos a prerrogativa de Deus ao fazer de nós mesmos nosso próprio fim. Difamamos a Deus insinuando que Ele não seja digno do nosso amor assim como nós mesmos somos. Nós praticamente destruímos a Deus, tanto quanto possível, ao negar a Ele, a Sua vontade revelada, e a Sua honra em nossas vidas.

O Homem Estabelece Qualquer Coisa, Exceto a Deus no Lugar de Deus. Somente um ser irracional faria formal e abertamente tal coisa, porém, todo homem por natureza faz estas coisas virtual e implicitamente. Ao invés de cultivar a Deus em todos os seus pensamentos, ele o nega (Salmo 10: 4). Ele pensa muito menos em Deus do que na maioria das outras coisas. Ele não encontra prazer em Deus como sendo Deus. Ele enfática e ansiosamente busca os interesses mundanos. Ele é um adicto aos prazeres da carne e desdenha dos caminhos de Deus, os quais os anjos se deleitam, por causa da gratificação terrena. Ele louva os meios e os instrumentos ao invés da fonte de todas as suas bênçãos. Ele trata a Deus como um mero espectador em sua vida. Ele rebaixa a Deus ao colocar alguém ou algum pecado como o Deus de sua vida. Em tudo e em cada passo ele nega a Deus.

O homem faz de si mesmo o fim de todas as criaturas. Nós somos tão egoístas por natureza, que nos achamos dignos não somente de nossa suprema afeição, mas também da afeição de outros. Nós imaginamos que somos o fim para o qual tudo mais existe. Embora alguns tentem disfarçar isso, todo homem tem uma opinião muito elevada de si mesmo.

O homem faz de si mesmo o fim pelo qual Deus existe. Ele faz que até mesmo Deus seja sujeito ao homem. Como ele faz isso? Faz de maneiras muito sutis, como demonstram os exemplos a seguir.

O homem faz de Deus o seu fim, quando o ama somente por motivos egoístas, e quando Deus lhe garante algum benefício. Isso não passa de amor as bênçãos e não ao Doador.

O homem faz de Deus o seu fim, quando se abstém de certos pecados somente porque isso o ajudará a promover outros propósitos pecaminosos. Por exemplo, ele pode se abster do alcoolismo apenas porque isso preserva o seu corpo para si mesmo. Não é pelo temor a Deus, mas por algum interesse próprio que o ateísmo prático é motivado.

O homem faz de Deus o seu fim, quando cumpre deveres religiosos tão somente para ganhos de ordem pessoal. Os ateístas vestem uma máscara muito fina de religião! Se não houver nenhum proveito claro para si mesmo, ele deixa de cumprir qualquer dever. Se ele pode se virar sem Deus, ele faz isso com satisfação. Ele somente ora em tempos de aflição e necessidades pessoais. A oração normalmente é mais “fervorosa” quando é menos piedosa. O ateísta prático só quer que Deus carimbe as suas idéias pessoais. Ele fica impaciente quando Deus não responde as suas orações e nem segue a sua agenda pessoal.

O homem faz de Deus o seu fim, quando busca objetivos pessoais no cumprimento de seus deveres religiosos. Simão, o mágico, exerceria alegremente os dons milagrosos se por meio deles recebesse reconhecimento e honra dos homens (Atos 8). Aqueles que vêm a Cristo somente para escapar do inferno, não tendo nenhum desejo de santidade pessoal e a glória a Deus, são igualmente culpados neste sentido. Nós detestamos o pecado por que isso primeiramente nos prejudica, ou por que ofende a Deus? A motivação por detrás de toda a nossa obediência é questionada. Por exemplo, nós mantemos o culto familiar somente para reivindicar direitos? Em tudo nós devemos manter a avaliação de Deus em vista, buscando Sua honra e glória.

O homem faz de Deus o seu fim, quando faz uso de Deus somente como uma desculpa para o pecado. Os homens utilizam algumas passagens distorcidas das Escrituras como uma muleta para apoiar suas concupiscências. Por exemplo, usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago (I Timóteo 5: 23), é uma passagem muito citada pelos beberrões. Isso é tentar fazer Deus concordar com o pecado e demonstra um alto grau de ateísmo.

Nós vemos mais evidências do ateísmo prático naquele homem que sustém uma visão indigna sobre Deus.


Ele tenta reduzir Deus a um tamanho que seja manipulável. Este pequeno Deus pode ser satisfeito com uma pequena justiça, pequena santidade, e pequena obediência. As superstições não demoram a surgir. Os homens começam a tratar Deus como se fosse um bebê, bajulando e subornando sua pessoa. Então eles imaginam que as ameaças de Deus são vazias, servindo apenas para assustá-los. Tudo isso se trata apenas idolatria mental, que é uma doença muito comum no mundo inteiro. Se um quadro correto desse deus pudesse ser retratado, que monstro não iria aparecer na tela!

terça-feira, 30 de maio de 2017

Por que o Catecismo Maior de Westminster deve ser lido pelos Presbiterianos?

Talvez isso deveria ser algo obvio, dado a Confessionalidade da IPB em torno dos Símbolos de Westminster, mas infelizmente não é. Com a ampla divulgação de fé reformada no Brasil, podemos dizer que a Confissão de Fé de Westminster ganhou um espaço maior entre os presbiterianos, porém, bem aquém do coerente. A situação do Catecismo Maior (CMW) é pior do que o da Confissão. 

Identificar como isso aconteceu no decorrer dos anos não é muito difícil, o que não nos interessa nesse momento. O que realmente importa é: como mudar isso? Alguns passos são necessários - Liderança estimuladora, divulgação ampla – uso nos cultos e classes de estudos, e leitura por parte dos crentes.

A Editora Cultura Cristã lançou um formato econômico contendo a Confissão e os dois Catecismos. Algo que precisa ser parabenizado. Louvado seja Deus por isso. A editora fez a parte dela em colaborar, e muito. Além disso, o formato que conhecemos, por ser adquirido sempre com descontos por igrejas. E o formato tradicional da Cultura é muito versátil (AQUI), pois traz os versículos transcritos, com fonte e tamanho agradáveis.

E por que devemos ler, e continuar lendo, o Catecismo Maior de Westminster? Como leitor assíduo do CMW quero postar aqui algumas observações pessoais e piedosas desse documento confessional, que a meu ver, supera qualquer outro documento cristão – obviamente, não inspirado, não livre de erros, não infalível; atribuições que pertence única e exclusivamente aos 66 livros do cânon bíblico.

Minhas razões são como se seguem:

1. É um documento oficial da IPB, pertencer a ela é ter tal documento como representação sistemática de nossa fé bíblica.

2. Seus autores foram cristãos e teólogos de reconhecido grau de piedade e profundidade.

3. Suas formulações (apesar de não livres de reformas) foram abalizadas pela teologia e pela oração.

4. Sua abrangência no campo do conhecimento teológico. Quase todos os temas da teologia sistemática foram abarcados no CMW.

5. O uso de uma grande quantidade de textos bíblicos (são quase 2.900 citações bíblicas).

6. A simplicidade de sua exposição. Pessoas simples são capazes de compreender suas frases e colocações.

7. A profundidade de sua exposição. A simplicidade não ofuscou a profundidade. Nenhum teólogo estaria acima de algum aprendizado ao ler o CMW.

8. Atenção exaustiva ao tratar dos aspectos da vida piedosa, ao expor os dez mandamentos, a oração, a leitura da Palavra, os sacramentos, entre outras ponderações piedosas.

Você notará que tal documento confessional é, dentro de seus limites, um instrumento de Deus para edificação de todo presbiteriano. O crente que lê o CMW percebe os benefícios.